Elitismo Cultural Inconsciente de Juízes e Penduricalhos
Não faz
muito tempo que o juiz Alex Kozinski, nos Estados Unidos, acusou seus colegas
juízes de elitismo cultural inconsciente. Ao julgar a sem vergonhice dos
penduricalhos, a Suprema Corte do Brasil demonstrou o quanto este elitismo
cultural de juízes e membros da justiça é preocupante, assim como o viés
socioeconômico, que os levam a oferecer uma justiça sem qualidade.
Não existe
no Brasil e no mundo um modelo ou teoria sobre salários ou remuneração de
juízes, mas as pesquisas mostram que o aumento de remuneração de juízes não
significa uma justiça de qualidade. Apesar dos avanços econômicos do Brasil,
nos últimos anos, e os supersalários de membros do Poder Judiciário, observa-se
que este é o Poder da mais baixa avaliação no país, por conta de uma justiça
diferenciada entre pobres e ricos.
Portanto,
esse elitismo cultural pode se manifestar como preconceito socioeconômico
implícito. Os supersalários de juízes os
tornam os mais bem remunerados no mundo, além de ocuparem um lugar de prestígio
em nosso sistema judiciário, sendo a casta de servidores públicos com melhores
salários, muitos deles ganhando até 100 vezes o que ganha a maioria da população
brasileira (um salário-mínimo).
Com isto,
criou-se no sistema judicial uma autocracia bem reforçada pelo elitismo
cultural, viés socioeconômico, hierarquia patriarcal vergonhosa, ainda carente
de estudos para mostrar como o status socioeconômico destes privilegiados afeta
suas decisões no tribunal.
Muita
atenção é dada à desigualdade de renda no Brasil, mas é preciso avançar muito em pesquisas
sobre o viés implícito e viés judicial
para examinar completamente as ramificações do viés socioeconômico implícito e
oculto no judiciário, sendo que seus impactos nos processos de tomada de
decisão judicial podem causar danos reais às populações desfavorecidas.
Já foi dito
que no Brasil a “Justiça é dura com os pobres e mansa com os ricos”. Isto é um
retrato do elitismo cultural na Justiça. Estudos em ciências sociais confirmam
que o viés implícito pode ser prevalente mesmo em pessoas que professam não ter
preconceitos explícitos.
Assim,
mesmo os juízes que acreditam que suas origens abastadas não influenciam suas
deliberações judiciais podem ser influenciados por viés socioeconômico
implícito. Exemplos desta natureza são abundantes no Brasil, diante de casos
que revelam que juízes podem favorecer e favorecem litigantes ricos em
detrimento daqueles que vivem na pobreza, com consequências negativas
significativas para pessoas de baixa renda.
Há poucos
dias registrou-se no país a prisão domiciliar do ex-presidente Jair Bolsonaro,
por questões de saúde e humanitária. O mesmo aconteceu com o ex-presidente
Collor de Mello. A crítica feita por alguns juristas é que existem milhares de
outros condenados mofando nos presídios brasileiros e que poderiam estar em
prisão domiciliar pelos mesmos motivos.
Portanto,
antes de se tratar das remunerações de juízes é preciso debater questões
inerentes à qualidade de justiça que se quer oferecer, mas o elitismo cultural
e o viés socioeconômico impedem isto acontecer. É preciso lembrar a alguns
juízes que suas próprias experiências muitas vezes se limitam ao mundo da elite
privilegiada.
Sem esses
lembretes, a discrepância entre juízes ricos e litigantes pobres pode resultar
em preconceito socioeconômico. O atual Presidente do STF, Ministro Edson Fachin,
tem falado sobre um código de ética para os membros do STF. Espera-se que seja
incluso neste código de ética algo sobre o elitismo cultural e o viés
socioeconômico.
Além disto,
não se pode desprezar as questões de raça, gênero e as próprias experiencias
profissionais e pessoais dos juízes em suas decisões. Para a Ministra Sonia
Sotomayor, da Suprema Corte Americana, o problema é que poucos consideram que a
branquitude e o gênero masculino não são identidades neutras e podem moldar as
perspectivas e opiniões jurídicas de alguém tanto quanto o gênero feminino ou a
não branquitude.
Sobre si
própria Sotomayor disse: "Espero que uma mulher latina sábia, com a
riqueza de suas experiências, chegue, na maioria das vezes, a uma conclusão
melhor do que um homem branco que não viveu essa vida."
A
Associação de Juízes Europeus levantou a questão de uma remuneração adequada
para juízes e concluiu que a adequação da remuneração só pode ser avaliada por
critérios objetivos e não por critérios subjetivos de interessados, como está
acontecendo no Brasil.
O Congresso
Nacional deve definir uma remuneração para os membros do Poder Judiciário,
considerando que “uma argumentação é
fraca se for reduzida à percepção subjetiva”, conforme argumentou a Associação
de Juízes Europeus. Critérios objetivos devem considerar a capacidade econômica
do país e a realidade em que vivemos.

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